A HISTÓRIA DA ICONOGRAFIA

Introdução

Visão histórica e a relação da Igreja Católica Apostólica Romana com as imagens de santos, da Virgem Maria e de Cristo, desde os primórdios do cristianismo até a resolução final do Concílio de Trento sobre as imagens.
Nos ateremos aqui à uma parte dessa pesquisa, preocupada com a utilização das imagens na transmissão do dogma cristão, pela Igreja Católica do Ocidente. Através das imagens, que retratavam não somente Cristo em cenas da Sagrada Escritura, mas também a Virgem Maria e os santos homens, a Igreja transmitia sua mensagem ao povo simples, que não tinha contato com os textos escritos. Dessa forma, tornava-se
mais clara ao conhecimento dos iletrados a doutrina que eles deveriam seguir. No século VII, o Papa Gregório já afirmava que “as pinturas são a leitura daqueles que não conhecem as letras”. Portanto, a Igreja do Ocidente considera importante a utilização de imagens no de-ver episcopal de instrução, recomendando, inclusive, através da resolução final do Concilio Ecumênico de Trento (1562), que “deve-se ter e guardar notadamente nas igrejas as imagens de Cristo, da Virgem (...) e dos santos”. [2] Para que se evitasse um retorno à idolatria, as autoridades cristãs fizeram questão de ressaltar a diferença entre a veneração de uma imagem, que remete a fé do cristão ao protótipo que ela representa, e adoração, que é um culto prestado unicamente a Deus.

Para elaboração deste trabalho, foram selecionadas algumas obras de autores que trataram do tema, como Alain Besançon, Hubert Jedin, Jean-Claude Bernadet, Cláudio Pastro, entre outros. Enciclopédias e dicionários especializados em arte e religião também serviram de fonte para elaboração deste.
O objetivo aqui é analisar a relação existente entre a Igreja Católica no Ocidente e a produção artística voltada à temas relacionados à transmissão da doutrina cristã ao longo dos séculos. Para isto, é importante conhecer as resoluções finais de alguns Concílios Ecumênicos em que a questão das imagens foi colocada em pauta (II Concílio de Nicéia – 787; e Concílio de Trento – 1562).
Será exposto ainda, o estudo de Cláudio Pastro, que faz um longo discurso em sua obra Arte Sacra; o espaço do sagrado hoje, onde ele ressalta a diferença entre a arte religiosa e a arte sacra, a verdadeira arte de culto, que experimentou um grande desenvolvimento no primeiro milênio, e que após o ano 1000, ficou restrita à Igreja Católica do Oriente.
Será analisada também a preocupação da Igreja Católica, no Ocidente, em controlar a produção de imagens para o culto cristão ao longo dos séculos. Embora esse controle não estabelecesse limites rígidos e imutáveis à iconografia sacra, as autoridades da Igreja Católica não deixaram de intervir em momentos decisivos, como será demonstrado nesse trabalho. O que a Igreja Católica não tolera na produção artística são as inovações, as imagens portadoras de um falso dogma ou de uma beleza profana provocativa.
A DOUTRINA CRISTÃ NO OCIDENTE ATRAVÉS DAS REPRESENTAÇÕES ARTÍSTICAS DO CRISTO

Os primórdios da arte cristã

A origem da devoção às imagens, e isso é um fato curioso, tem suas raízes no plano político. No Baixo Império, os retratos oficiais dos imperadores reinantes eram considerados verdadeiros substitutivos da presença do soberano. Sua recepção se fazia em meio a solenes procissões. Eram objetos de verdadeiro culto e respeito, dignas de saudações respeitosas que iam até à prosternação, tapeçaria, incenso e velas.
O culto das santas imagens inicia-se no decorrer do século V, segundo nos mostra Danielou e Marrou, e experimenta um brusco impulso no século VI, durante e após Justino II (565-578), no Império Bizantino. Desde suas origens, segundo os mesmos Danielou e Marrou
“a arte cristã (...) havia desenvolvido uma iconografia religiosa e havia representado tipos ou cenas tomadas de empréstimo à Sagrada Escritura para seus muros e monumentos. Tais representações, além da função decorativa e pedagógica, possuíam já um certo valor de sacralização.”

Ao longo dos séculos, do começo da arte cristã até hoje, percebe-se que há diferenças entre as representações artísticas do Cristo. Não é simplesmente a observação de que a arte mais antiga seja diferente, ou uma mais moderna seja mais desenvolvida. Há que se diferenciar dois estágios da arte cristã: a arte sacra e a arte religiosa.

ARTE SACRA E ARTE RELIGIOSA
Segundo Cláudio Pastro, existem dois conceitos sobre arte, que não são meras noções, mas possuem diferenças radicais. Trata-se da arte sacra e da arte religiosa. Para Pastro, “a arte sacra, discreta e em estrita ligação com a liturgia, faz um todo com o espaço sagrado. A arte religiosa, ao contrário, pode decorar uma sala, um quarto... e até uma capelinha”. Uma imagem de culto, que é uma arte sacra, manifesta a existência de Deus; ela é sagrada ética e religiosamente. Ela tem autoridade em si mesma, produz no fiel uma atitude de respeito, comoção, adoração, temor e tendência a aproximar-se. Essa imagem sugere ao fiel que adore a Deus. Ela provém do pneuma, do Espírito Santo. Já numa imagem de devoção, que é uma arte religiosa, se sente a personalidade de um homem determinado. Esse tipo imagem mostra a vida pessoal do artista, suas reflexões de fé, lutas e buscas internas.
A imagem de devoção é fruto de um artista, de um bom artesão. O artista de uma imagem de culto não cria, mas serve á Presença, contempla.
O objetivo da arte sacra consiste em exprimir pelo visível o Invisível, em revelar a imagem da natureza divina impressa no criado, mas oculta nele, realizando objetos visíveis que sejam símbolos do Deus Invisível. São Nicéforo e São Teodoto Studita consideravam a veneração do ícone como parte integrante da Liturgia, à semelhança da celebração da Palavra.
A arte sacra é, segundo Cláudio Pastro, “como um prolongamento do Mistério da Encarnação, da descida do Divino no criado”. [5] É arte de culto a decorar as paredes das igrejas e a iconostase, seu santuário, com os principais mistérios bíblicos da fé. Sendo assim, o artista não pode deixar-se guiar pelas suas próprias inspirações; seu trabalho não consistirá em exprimir a sua personalidade, mas procurará a forma perfeita que corresponda a Protótipos Sagrados de inspiração celeste, através da celebração comunitária e da oração pessoal que filtra a intenção subjetiva do artista e faz brotar o seu conteúdo objetivo. O ícone está em estreita ligação com a liturgia.
Sendo assim, o ícone é a imagem sacra da Igreja Universal, que após o ano 1000 ficou restrito ao Oriente. Já no Ocidente, desde o século XII que os artistas não fazem parte dos Sagrados Ministérios. Na opinião do mesmo Cláudio Pastro, “talvez exista [hoje] uma arte religiosa, mas não uma arte sagrada”. [6] Esse tipo de arte prevaleceu durante todo o primeiro milênio, mas após o ano 1000, foi sendo substituída pela arte religiosa, até ser deploravelmente dominada nos séculos XVIII e XIX, pelo moralismo, sentimentalismo e esteticismo da época romântica.
AS BASES PARA A REPRESENTAÇÃO DO CRISTO

Durante o século IV tendências vindas da penetração de elementos orientais e ocidentais levantavam alguns problemas para a arte sacra, sobre que caminho deveria seguir. Nessa época, autoridades da Igreja (Doutores da Fé, Padres, soberanos pontífices) preocupavam-se em impedir a volta à idolatria, encerrando a iconografia em limites preciosos, preservando a arte sacra dos contatos com a ignorância.
Nesse tempo, São Basílio, juntamente com Santo Agostinho e São João Crisóstomo, exerceram grande influência no desenvolvimento da arte sacra. Segundo Alfred Leroy.

“Para São Basílio e seus discípulos era normal representar o Cristo sofredor, pobre, carregando os pecados do mundo, e sem nenhuma beleza humana. Para Santo Agostinho e São João Crisóstomo tal concepção parecia incompatível com a Majestade Divina”

A última concepção sobressaiu. Santo Agostinho e São João Crisóstomo queriam que as imagens fossem visões de majestade e serenidade, oferecidas à adoração e veneração dos fiéis.e Com relação à representação da fisionomia de Cristo surgia outro debate: deveria se adotar a iconografia síria, na qual Cristo é representado de cabelos longos e barba, ou a iconografia romana, em que Cristo é representado imberbe e de cabelos curtos.
Segundo Cláudio Pastro, “o ponto básico referencial na iconografia cristã é, sempre, a face aqueropita, a sagrada Face não pintada por mão humana” [8]. No final do século IV, após muitas discussões, prevaleceu a representação síria.
Assim a Igreja de Roma ia estabelecendo as bases da iconografia sacra, sem estabelecer limites rígidos, estáticos e imutáveis à arte sacra, embora não deixasse de intervir com rigor em momentos decisivos, como a Querela de Imagens, nos séculos VIII e IX, e através do Concílio de Trento, no século XVI, quando o luteranismo era divulgado pela Europa.
A unidade da arte sacra se dava devido aos intercâmbios realizados entre conventos disseminados por todo o mundo cristão. Nos mosteiros, religiosos e religiosas praticavam a pintura, escultura, iluminura e artes menores, preservando as artes e as letras trazidas dos séculos anteriores. Até o século XIII, a maioria dos pintores, mosaístas e ilustradores eram religiosos.
O QUE A BÍBLIA NOS FALA SOBRE AS IMAGENS?
O que a Bíblia nos fala sobre as imagens?

Em se tratando do texto bíblico, principalmente no Antigo Testamento, são apresentadas ao leitor diferentes visões quando se trata das imagens, o que gerou, ao longo dos séculos, divergentes opiniões sobre o assunto. Em alguns trechos, como em Êxodo 20, 4, por exemplo, Deus proíbe a fabricação de imagens para se evitar a idolatria. Em outras passagens, ainda no Antigo Testamento, percebe-se a utilização de imagens, como em Êxodo 25, 18-22, quando Deus ordena a Moisés que faça dois querubins de ouro entre os quais Deus se encontraria e falaria com ele. Em Números 21, 8, para punir seu povo, Deus envia contra eles serpentes abrasadoras, e diz a Moisés: “Faz uma serpente de bronze e coloca-a numa haste; aquele que for mordido e olhar para ela, viverá”.
Alguns historiadores sugerem que a reincidência com que o Antigo Testamento proíbe a fabricação de imagens seria o indício de que haveria tal prática entre os hebreus. Sabe-se que os judeus não eram uma sociedade desprovida de imagens. Um exemplo é a sinagoga da antiga cidade Dura-Europos na Síria, descoberta em 1921, aproximadamente do século III, que possuía em sua sala de rezas pinturas, que ilustravam cenas bíblicas.

A posição da Igreja Católica com relação à utilização das imagens foi praticamente definida no ano de 787, no II Concílio Ecumênico de Nicéia. Nesse momento, no Oriente, iconoclastas enfurecidos destruíam imagens do Cristo, da Virgem e dos santos, visando acabar, assim, com a idolatria. Se os soberanos pontífices e padres dos diversos Concílios se mostraram, no Ocidente, preocupados em deixar as artes religiosas se desenvolverem, no Oriente o clero exerceu sobre elas uma severa vigilância. Entre aqueles que consideram a pintura, o mosaico e a escultura como preciosos auxiliares da evangelização, e os iconoclastas (destruidores de imagens), explode um grande conflito no século VIII, no ano de 726, que só terminaria em 843. Esses iconoclastas procuram acentuar o caráter particularista da Igreja de Constantinopla em face da Igreja de Roma. Consideravam o culto das imagens uma forma de idolatria e lutaram contra ele, inclusive pela destruição de imagens sacras. Segundo a teologia católica, como é citado no Dicionário enciclopédico das religiões, “a idolatria é o pecado que consiste em prestar a uma criatura um culto que só a Deus é devido” .
Essa crise da mais rara violência, alastra-se de Constantinopla para toda a cristandade. Imagens do Cristo, da Virgem e dos Santos, mosaicos e esculturas reproduzindo essas figuras, tudo foi proscrito ou destruído.
Roma ergueu-se contra os iconoclastas já em 731, condenando-os através de um Concílio romano. Mais tarde, Paulo (757-767) acolheu artistas bizantinos expulsos pela fúria iconoclasta. Coube ao Papa Adriano presidir ao II Concílio Ecumênico de Nicéia, em 787, o qual afirmava que “Quem venera uma imagem, venera a pessoa que ela representa.” Esse Concílio sancionou também a tradição segundo a qual

“devem expor-se as venerandas imagens sacras, manufaturadas com tintas, com mosaicos e com outras matérias idôneas, nas igrejas consagradas a Deus, nos vasos e paramentos sagrados, nas paredes e nos retábulos, nas casas e nas ruas; e isso aplica-se tanto à imagem do Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo e à Nossa Senhora Imaculada, bem como às imagens dos veneráveis anjos e de todos os homens santos e piedosos”.

Ficava definido, assim, que de modo semelhante à sagrada cruz, as santas imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Santa Mãe de Deus, dos santos homens e dos anjos, pintadas, em mosaico ou outra matéria conveniente, deveriam ser expostas nas igrejas, nos vasos, em ornamentos, em quadros e paredes. Definia ainda que a veneração prestada às imagens não deveria se confundir com o culto de latria prestado unicamente à Deus. A homenagem (e não adoração) prestada à essas imagens não constitui idolatria, porque através da homenagem e da imagem, a adoração se dirige ao protótipo. Assim quem adora à uma imagem, adora à pessoa que ela representa.
Aqueles que se atrevessem a ensinar de outra maneira, ou inventassem alguma novidade com relação às coisas sagradas da Igreja, entre elas as imagens e relíquias de santos, seriam punidos: se fossem bispos ou clérigos, seriam depostos; caso fossem monges ou laicos, seriam submetidos à excomunhão. A política da Igreja Católica, com relação às imagens, praticamente se definiu nesse Concílio.
Essa decisão no II Concílio de Nicéia reafirma as palavras do Papa Gregório, que no século VII disse que:

“Uma coisa (...) é adorar uma pintura, outra é apreender por uma cena representada o que se deve adorar. Pois o que o escrito oferece às pessoas que lêem, a pintura o fornece aos analfabetos que a olham, já que estes ignorantes vêem o que eles devem imitar; as pinturas são a leitura daqueles que não conhecem as letras, de forma que desempenham o papel de uma leitura, principalmente entre os pagãos”.

São Boaventura, segundo Bernadet, considera que a vista é o mais convincente dos sentidos. Diz ainda que “o que vemos motiva mais nossos afetos que o que ouvimos” .
Tentando opor um Concílio ocidental ao II Concílio de Nicéia, o imperador Carlos Magno realizou o Concílio de Frankfurt, no ano de 794, com a participação de bispos da, França, Inglaterra e dois representantes do Papa. Carlos Magno não queria reconhecer o caráter ecumênico do II Concílio de Nicéia. Houveram falhas nas traduções dos textos originais, em grego, para a cristandade ocidental. Principalmente no que se referia às imagens, a tradução não foi clara, suscitando dúvidas e discussões. Esse foi um dos motivos que levou Carlos Magno a realizar o Concílio de Frankfurt. Mas o Papa Adriano I (772-795) reconheceu o II Concílio de Nicéia como o sétimo Concílio Ecumênico.
As representações artísticas das fases da vida de Jesus tornaram-se, ao longo da história do cristianismo, o recurso pelos quais os fiéis procuraram se aproximar do Filho de Deus. As reproduções da história sagrada se tornaram o “catecismo dos iletrados”, como afirmavam os escritores antigos. As gerações cristãs procuravam, através dessas representações, subir ao Invisível, passando pelo visível que Cristo nos apresentou.

O CONCÍLIO ECUMÊNICO DE TRENTO (1562)
Roma, assim, definia a utilidade e o papel da arte sacra, fazendo uso inclusive de imagens esculturais, diferentemente da Igreja do Oriente. No século XVI, o Concílio de Trento reafirmou os dados essenciais do Concílio de Nicéia II com relação às imagens, subordinando a arte ao dogma, voltando-a à propagação da fé católica. Afirmava esse Concílio que deveriam ser conservadas nas igrejas, imagens de Cristo, da Virgem Maria e de santos, não por se crer que haja nessas imagens alguma divindade, não para se fazer algum pedido à elas, ou para prestar à elas um culto que só é devido Deus, mas sim porque quando nos prostramos diante das imagens, nossa adoração se dirigeà pessoa que ela representa,seja Jesus Cristo, a Virgem Maria ou algum dos santos.
Definia também o Concílio de Trento que as reproduções artísticas das histórias e dos mistérios de nossa redenção serviriam à instrução do povo. Essas reproduções provocam no povo a recordação dos benefícios e dons concedidos por Cristo, e também colocam diante dos olhos dos fiéis a obra de Deus realizada através dos santos homens e de seus exemplos. Mas o Concílio proibia exposição de qualquer imagem portadora de falso dogma E mandava, ainda, que se ensinasse ao povo que a divindade não pode ser percebida com os olhos ou o corpo, nem expressada através de cores ou formas.
Com relação a todos esses pontos a Igreja Católica não mudou sua posição favorável às imagens, sendo raras suas intervenções após o Concílio de Trento. Numa dessas intervenções, segundo D. Menozzi, citado por Besançon, o Papa Urbano VIII proibiu, através da carta Sacrossancta, que se vestissem as imagens dos santos ou do Cristo “com o hábito particular de qualquer ordem regular que seja”, impedindo, assim, uma apologia desonesta.
AS IMAGENS SAGRADAS NA IGREJA CATÓLICA HOJE
Ainda hoje a Igreja Católica Apostólica Romana mantém o costume de ornar as igrejas com imagens de Cristo, da Virgem Maria e dos santos, como nos revela o Cânone 1188 do código do Direito Canônico:

“Mantenha-se a praxe de propor imagens sagradas nas igrejas, para a veneração dos fiéis; entretanto, sejam expostas em número moderado e na devida ordem, a fim de que não se desperte a admiração no povo cristão, nem se dê motivo a uma admiração menos correta.”

A Igreja Católica considera um abuso guardar veladas algumas imagens, pois essa atitude é temerária e contrária à sua utilidade, que é a de fomentar a piedade dos fiéis. Nos últimos anos do século XX, após o Concílio Ecumênico Vaticano II, cresceu muito o interesse da Igreja Católica, no Ocidente, pelos ícones, que desde o início a Igreja Oriental tinha como “imagem do Invisível, como imagem Condutriz, uma arte da liturgia, expressão viva da fé de uma comunidade e não de um artista.” [16] Aos poucos, a novidade foi reevangelizando o Ocidente.
Segundo Emile Mâle, citado por André Richard, a “Igreja romana utiliza a arte para opor suas próprias teses (culto mariano, primazia da Igreja romana, valor da penitência e das boas obras) às reivindicações dos adeptos da Reforma.” [17]
Os Reformados (Calvinistas) defendem a opinião, tradicional entre os protestantes, de que as imagens são contrárias à Escritura e acarretam o perigo da idolatria. Já os Luteranos afirmam que, quando Cristo mandou os apóstolos pregar o Evangelho em todas as línguas, incluía também a linguagem figurada do artista (pintor ou escultor). Acrescentavam ainda que quem reconhece na música o veículo apto da fé e do amor dos cristãos, não podem deixar de reconhecer nas representações óticas um instrumento apto para exprimir as verdades reveladas.
O CONTROLE DA IGREJA CATÓLICA SOBRE A PRODUÇÃO DE IMAGENS
Todo o poder que as imagens possuem, remetem inevitavelmente, segundo Jean-Claude Bernadet, ao poder da Igreja, que, ciosa de não perdê-lo, tende a manter um monopólio sobre a produção de imagens. As autoridades eclesiásticas têm exercido controle sobre os tipos de imagens utilizadas no culto cristão. Estas não podem ser inspiradas unicamente pelo esteticismo ou pela devoção popular exuberante, fantasista. Foi com esse pensamento que o Papa Urbano VIII, em 1628, condenou a representação da Santíssima Trindade sob forma de um tronco humano com três cabeças, e que, em 1745, Bento XIV rejeitou a cena de três pessoas sentadas uma ao lado da outra, para representar a Santíssima Trindade. Isso porque nunca o Espírito Santo apareceu sob forma humana.
Foi também proibido pelo Papa Pío VI que as sagradas imagens, em particular as da Virgem Maria, recebessem outras denominações diferentes daquelas que a Igreja aprova e recomenda. Essa denominações são “temerárias, ofensivas aos ouvidos piedosos e injuriosa à veneração devida especialmente à bem-aventurada Virgem.” Para a Igreja, a arte cristã deve representar as Pessoas Divinas somente sob as formas pelas quais são citadas na Sagrada Escritura.
A posição da Igreja Católica favorável às imagens não autoriza a representação direta de Deus, como uma das figuras da Santíssima Trindade. Em 1745, o Papa Bento XIV já afirmava através da Sollicitudini nostrae, citada por Denziger, que as imagens da Santíssima Trindade são temerárias e contrárias ao costume da Igreja, pois não existem imagens da Santíssima Trindade comumente aprovadas e que possam ser permitidas com segurança. A impossibilidade dessa representação será mantida pela Igreja por séculos. Durante todo o primeiro milênio as representações de Deus são extremamente raras na cristandade latina. Somente a partir do século XIII elas se tornam mais freqüentes e explodem no maneirismo e no barroco. Tanto para Kant quanto para Hegel, citados por Alain Besançon, “todas as magens que se referem à Deus são justificáveis, mas nenhuma é verdadeira; só são verdadeiras em relação ao artista, não em relação a Deus”
CONCLUSÃO
Originada das representações artísticas de imperadores do Baixo Império, a devoção das imagens na história do cristianismo se iniciou por volta do século V, ganhando grande impulso no século seguinte.
Dos primórdios até nossos dias, a arte cristã sofreu grandes modificações. A arte sacra, arte de culto que existia durante os primeiros séculos como parte integrante da liturgia, pouco a pouco foi dando seu lugar na iconografia cristã do Ocidente à arte religiosa um tipo de arte em que a personalidade individual de um homem, sua expressão de fé, suas lutas internas se fazem presente.
Na história do cristianismo, e em particular no desenvolvimento da iconografia cristã, as autoridades da Igreja Católica, no Ocidente, não estabeleceram limites intransponíveis à arte, que se transformava, rejuvenescia e progredia ao longo dos séculos. Isso, porém, não significa que a Igreja não interferiu em momentos de conflitos e debates a respeito do assunto.
Logo nos primeiros séculos, a Igreja de Roma tratou de estabelecer as bases da iconografia cristã, sem no entanto tirar a liberdade de criação dos cristãos. No século IV surgiram alguns problemas levantados pela arte sacra, relacionados á representação da fisionomia de Cristo. A mesma questão foi levantada em relação á iconografia marial e à incipiente iconografia dos santos.
Desde o nascimento da arte cristã, a Igreja Romana havia estabelecido uma relação entre palavra e imagem. Mesmo se debatendo com opiniões contrárias, a Igreja Católica no Ocidente se manteve, de um modo geral, favorável ao uso das imagens, considerando-as um instrumento episcopal de instrução. Essa posição gerou alguns conflitos ao longo dos séculos. Por volta do ano 600, numa atitude iconoclasta, o bispo Serenus, de Marselha, mandou destruir as imagens de sua cidade. Essa atitude resultou no afastamento de fiéis. O bispo Serenus foi repreendido através de uma carta envidada pelo Papa Gregório, que representava a postura adotada pela alta hierarquia eclesiástica durante séculos, que considerava a pintura “a leitura daqueles que não conhecem as letras” [21]. No século VIII estoura uma crise iconoclasta da mais rara violência em Constantinopla, que durou até o ano de 843. Nesse período foi realizado o II Concílio Ecumênico de Nicéia (787), que praticamente definiu a posição da Igreja Católica com relação às imagens. No século XVI, a Igreja precisou intervir novamente na questão através do Concílio de Trento, que reafirmou o que se havia decidido no II Concílio Niceno.
“A imagem é um livro portador de linguagem” [22](Gregório de Nissa). Foi pensando dessa maneira que a Igreja utilizou as imagens na transmissão de sua doutrina àqueles que não tinham contato com as letras. Era através das representações de cenas tomadas da Bíblia que o povo simples apreendia aquilo que deveria seguir e imitar. E para responder ao argumento comum entre os protestantes calvinistas, de que a utilização das imagens levaria o povo à idolatria, as autoridades eclesiais fizeram questão de ressaltar a diferença existente entre adoração, culto prestado unicamente a Deus, e veneração, que é uma homenagem prestada à imagem, que remete a fé do cristão ao protótipo representado.